
Interessante notar que o filme "Janela da Alma" faz um contraste entre um mundo saturado que abusa de imagens, cujo fim é atrair o olhar do consumidor (luzes, néon e outdoors de propaganda) com paisagens desoladas onde não há nada a se ver.
Existe uma crença ancestral de que a visão depende de nós muito mais do que dependeria das coisas que vemos. Expressamos o que vemos a partir das impressões que já temos dentro de nós, e não do que temos diante dos nossos olhos. Exemplo disso é que quando não queremos que determinada coisa não aconteça (como um acidente, ou uma traição ou algo feio) fechamos os olhos. Daí o ditado “O que os olhos não vêem o coração não sente.”
Quando criança, eu gostava muito da série O Incrível Hulk. Lembro bem de um episódio em que Bruce Banner chega numa cidadezinha pacata e logo fica contente, achando que ali o “Hulk” jamais se manifestará. De repente, dá de cara uma linda jovem vidente, que fitando-o nos olhos, diz: “os olhos são as janelas da alma, afaste os seus de mim para que eu não descubra os seus segredos mais íntimos.” Bruce tenta disfarçar o olhar, com medo de que ela descubra que ele esconde, dentro de si, um monstro. No final, Bruce fica surpreso, quando a moça fala da pessoa maravilhosa que ele é e das riquezas que ele tem na alma, sem jamais mencionar a presença do Hulk. Por trás da fera existe a bela, mas é preciso fechar os olhos físicos para ver isso.
Outra cena, a do filme The Elephant Man (O homem Elefante) também me impressionou bastante. Sofrendo de neurofibroma, um tumor no rosto que crescia dia a dia, desde os seus sete anos, gerando uma deformidade com aparência de elefante (daí o nome). Ainda criança passou a ser objeto de exploração de donos de circo e da mídia da época, até ser resgatado e amparado pelo Dr. Drowser, medico influente que passou a sua deformidade, e ao estudar seu caso de forma científica, e ao mesmo tempo, tratando-o como um ser humano a despeito a sua deformidade.
Em uma das cenas finais, Joseph Merrick, (nome de batismo do Homem Elefante), é visitado pela rainha da Inglaterra em seu humilde quarto, e lhe diz: “Passei grande parte da minha vida sendo visto como uma aberração da natureza; fui objeto de chacota, repúdio e nojo; ou mesmo como fonte de lucro para muitos. Acabei achando que eu era mesmo o que diziam de mim. Isso doeu muito e por muito tempo, mas já não dói mais... Hoje eu sei quem sou: Joseph Merrick, e sei o que sou: um ser humano como outro qualquer... Foram pessoas como Sua Magestade e o Dr. Drowser, que olham com a alma, e cuja alma é boa, que me ensinaram a me ver como sou de fato, e não como aparento ser.”
Muitas vezes nos é colocada uma viseira, como as que se põe em cavalos, a fim de moldurar ou limitar a visão daquilo que nos rodeia. Somos levados a ver a partir de um ponto de vista pré-estabelecido. Só conseguimos ver o que a nossa percepção nos permite, baseados na limitação das nossas próprias experiências. Mas isso deveria nós levar a expor nossas percepções, e não impô-las. Quando expomos o que imaginamos (invisível) em palavras, damo-nos mutuamente a chance de enriquecer e ampliar nosso campo (visível) de visão.
Seria fácil, num documentário como esse, cair na abstração poética, ou então ir para o outro extremo, enfileirando esquisitices uma após outra. Mas não é essa a proposta, e sim, que cada um se veja com seus próprios olhos, e não a partir de uma visão distorcida, projetada pelo outro, pontos de vista que nem sempre condizem com a verdade do nosso ser.
Como auto-reflexão do que vejo em mim mesmo, lembro de duas frases que me marcaram, uma no crioulo da Guiné Bissau, que diz: “I ka tudu kil ki bu oja ki bu jubu” - nem tudo o que olhamos é o que vemos , - e outra no britânico que diz algo semelhante:“What we look at and what we see are two different things” - o que olhamos e o que vemos são duas coisas diferentes. Pura verdade!
Ver é transpor as barreiras do visível até atingir o invisível, o imaginável, o transcendental. Paulo, o Apóstolo, disse que “vemos como que por um espelho”. A gente nunca se vê fora de foco. Já percebeu isso? Diante do espelho nos olhamos e nos ajeitamos até que tudo esteja bem. Procuramos nos adequar ao que achamos que vai ficar melhor para nós. O espelho projetar nossa imagem tentando fazer uma aproximação da realidade. Infelizmente, a imagem refletida no espelho está longe de ser a perfeita. Pra começar, é uma imagem oposta, contrária, e logo, distorcida. Caímos no grande erro de Narciso que, ao se mirar no reflexo do rio, achava que sua imagem era a única perfeita e, esquecendo-se de todo o mais ao seu redor, esqueceu também que seu espelho seria também o objeto da sua destruição. A visão gera percepções que geram emoções, que geram impressões que, por fim, se codificam na própria imagem. Cabe a cada um fazer o uso correto desses elementos.
Certo dia, Jesus, o maior filósofo e educador de todos os tempos, olhando para o povo simples que o seguia, disse: “se os teus olhos forem bom, todo o teu ser terá luz...”, e voltando-se para os fariseus, hipócritas e demagogos da época, concluiu: “mas se os teus olhos forem maus, todo o teu ser jaz na escuridão”.
Ver além do efêmero, do passageiro, do palpável, do visível é como ver por um prisma, que atravessado pela luz, projeta imagens, as mais diversas e belas possíveis. Mas é preciso ver com a alma, como diz Exupéry, em o Pequeno Príncipe: ”é preciso ver com o coração, pois o essencial é invisível aos olhos”.
Osvaldo H S Filho
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