sexta-feira, 27 de junho de 2014

RAZÕES PARA VOCÊ NÃO SE TORNAR UM MISSIONÁRIO


Por Osvaldo HSFilho
Não se torne um missionário se você acha que vai mudar o mundo.
Antes de tudo porque altas expectativas só levam a decepção e frustração, além de que o seu desejo de mudar o mundo talvez supere o seu real desejo de servir. Então, primeiro, pergunte a si mesmo se você ficaria feliz em se mudar para o exterior e viver num ambiente extremamente difícil, a fim de evangelizar e ajudar, em silêncio, a um povo. E no final, pelo pouco ou nenhum fruto durante muitos anos de trabalho, não obter nenhum reconhecimento. Meu cunhado e minha irmã trabalham entre muçulmanos há bastante tempo, vivem no anonimato, e quase sem  resultado (humanamente falando) visto ou reconhecido. Mas eles sabem que Deus é quem opera neles e através deles. Eles fazem o trabalho mas quem produz o resultado é Deus. Esta é a certeza
Se você responder honestamente que sim, então talvez você seja de fato um candidato. Mas não se preocupe se você não sabe responder. Deus vai lhe dirigir para o que Ele quer que você faça e onde você deve atuar. O pior é descobrir, mais tarde, que não era bem isso que queria, e que tudo não passava de uma síndrome insalubre de salvador do mundo, fazendo o papel do cara da camisa cor de laranja no meio do trânsito.

Não se torne um missionário porque quer ser uma pessoa melhor.
Desde que eu era um adolescente, estudante do ensino médio, mesmo não sabendo ao certo como fazer a vontade de Deus, eu já desejava ardentemente falar do evangelho. Eu era míope e usava um dos maiores óculos que alguém já tinha visto, pareciam duas televisões no meu rosto. E  eu falava de Jesus para todo mundo: na escola, na rua, no trabalho, no ponto de ônibus.
Depois que me tornei missionário, eu me lembro de alguém perguntando a uma amiga de igreja o que me fazia tão "bom" na evangelização. E ela disse: "Osvaldo? Oh, ele não é assim porque se tornou um missionário. Ele já era assim desde que o conheço."
Hoje eu já não uso mais óculos, e sei que aqueles grandes óculos não escondiam uma farsa de que indo fazer missões, eu iria magicamente me tornar um super-herói cristão. Clark Gable, o Superman, só existe nos filmes. O que você é aqui, será lá também. E embora seja verdade que a mudança de ambiente possa desencadear o crescimento, isso não significa que você vai passar de um crente morno para um Billy Graham ou uma Madre Theresa de Calcutá só porque se encontra em outro continente. Certamente não é assim que funciona.

 Não se torne um missionário só porque você não sabe fazer outra coisa.
Um jovem chegou no gabinete pastoral e disse que Deus o estava chamando para ser missionário. O pastor, contente, quis saber como Deus o havia chamado, ao que o jovem respondeu: “Bem, é que eu já tentei de tudo, sabe pastor. Tentei o vestibular e não passei. Comecei como aprendiz numa oficina, mas disseram que eu não tinha aptidão. Me escrevi no concurso do Banco do Brasil, e fui reprovado. Então eu acho que Deus quer que eu seja um missionário.”
Falta de sucesso em outras coisas não qualifica ninguém à obra missionária. Pensar que o missionário é alguém que não sabe fazer nada na vida secular é ilusório e até humilhante. Há muitos missionários que seriam excelentes médicos, professores, doutores, administradores e empresários. No entanto, deixaram tudo para servir ao Senhor em tempo integral.
Se você ainda não se encontrou no que gostaria de ser, o melhor é fazer um teste profissionalizante para descobrir sua real aptidão.

Não se torne um missionário se acha que só você tem as respostas.
Na maior parte do tempo somos bastante desajeitados em relação aos outros. Isto é bem verdadeiro. Nos achamos inteligentes e superiores. Mas o que somos, e Deus bem sabe, é desagradáveis, arrogantes e altivos. Principalmente quando vamos a outras culturas e lhes ditamos como podem ser transformados pelo poder de Deus, e como devem "consertar" a si mesmos, enquanto investimos dinheiro em seus problemas.
Na minha experiência (com muitos erros também) eu aprendi que todo bom missionário, em primeiro lugar, ESCUTA. Escuta, observa e escuta de novo, e muito.
Quem escuta e observa, aprende muito mais. É melhor ser um cara rico com o carro de qualidade inferior ou um herói calado, do que aquele que parece saber tudo e no fundo não sabe nada. Como já dizia a canção “eu sei que da verdade não sou dono, e sei que não sei tudo sobre Deus. Às vezes quem duvida e faz perguntas, é muito mais honesto do que eu”.

Não se torne um missionário, se você não gosta ou não pode viver em trânsito
Desde que saí do seminário, eu tenho vivido no exterior por mais de 15 anos, e passei, incontáveis vezes, por diversos países e casas, tomado aviões, transportes públicos, dirigindo carros; chegado, ficando, saindo de novo. Fiz muitos irmãos e amigos, fui hospedado por muitas famílias, grandes e pequenas. Mas sempre tive que dizer adeus a esses bons amigos e família. Pessoas vêm e vão do campo missionário. Os governos mudam as leis de visto e a missão às vezes muda de termos.
No começo é muito duro e dói bastante a separação. Muitas vezes você faz acordo para morar numa casa razoavelmente boa, mas acaba ficando noutra infestada de ratos e baratas. Você sai da era dos botões e manivelas e vai para a era braçal. É um trânsito contínuo e constante.
Ao se candidatar para missões, quer goste ou não, perceba ou não, você está se inscrevendo para um estilo de vida transitória, com a casa nas costas, como o caramujo que nem sempre gosta de falar desta realidade.

Não se torne um missionário, se você se acha grande, espiritualmente falando
Não existe nada mais falaz e inadmissível do que mudar-se para um país estrangeiro para revelar toda altivez e arrogância que está em seu coração. É sério. Você reclama mais. Chora mais. Amaldiçoa mais. Fica com mais raiva. Tem menos fé. Fica mais cínico e crítico, e, em muitos aspectos, torna-se uma pessoa pior do que seus anos de membro de igreja no seu país. Será mesmo?
Chame isso de choque cultural ou do que quiser, mas dizer que o meu estresse no campo missionário me dá o direito de jogar todo o meu o lixo fétido sobre pessoas que não têm nada a ver com meus problemas e frustrações é muito mais conveniente para acobertar o que eu já era mesmo antes de sair para o sol escaldante a céu aberto.
Ser missionário é longe de ser perfeito, mas é, antes de tudo, exalar a flagrância suave do bom perfume de Cristo no rosto e no coração das pessoas.

Não se torne um missionário, se você pensa em viver em sombra e água fresca.
Pode parecer fácil, mas definitivamente não é. Há meses, muitos meses por sinal, você tem que prender a respiração e orar (muito) para que seu sustento chegue integralmente, mesmo sabendo que esse sustento é baseado na bondade de irmãos e amigos da igreja ou da família. E então, quando chega o dinheiro, você tem que saber exatamente como gastá-lo - comprar café? Será que podemos comer carne hoje? Devo comprar o arroz de primeira ou de segunda? Será que vai dar para terça e quarta? E esta roupa usada (ninguém sabe) provavelmente ficaria bem? E se batem à sua porta pedindo um punhado de arroz para alimentar sua família? Você não pode simplesmente dizer: “vá em paz, e que Deus o abençoe”.
E então? Dá arrepio, né? Depois ainda tem aquele estranho processo de pedir que melhorem o sustento enviado, enquanto você se sente como que amolando ou esmolando as pessoas, que por acaso são as únicas pessoas que você conhece - como aquela irmãzinha que vende salgadinhos na igreja para mandar uma oferta para você.
Tudo isso parece ser ótimo para aumentar a sua fé, mas, por outro lado, pode ser um assassino para o seu coração, suas finanças, seu senso de auto-estima, suas economia, suas relações, seu orçamento, e sua liberdade.

Não se torne um missionário, se você não está disposto a mudar.
Esse fim-de-semana eu visitei uma amiga de muito tempo, e ela disse que “ser crente é ser eclético”. Soou como brincadeira, mas isso me deixou pensativo. Flexibilidade é a coisa mais importante para o missionário que vive no exterior. Da mesma forma a humildade. Infelizmente, essas qualidades não são naturalmente geradas no nosso caráter. Mas temos que aprender  que quanto mais determinados formos para manter os nossos planos - seja no ministério, na vida cristã, no casamento, nas amizades e no crescimento pessoal e espiritual - mais doloroso será quando os planos mudarem de direção, e inevitavelmente irão.
Eu pensei que minha vida como missionário correria sem interrupções até o final dos meus dias, apesar de tudo o que eu já havia passado. Mas Deus me fez parar. E a forma brusca como tudo aconteceu foi muito dolorosa para mim e mudou totalmente o meu modo de ver o meu chamado e tudo o que eu tinha feito até então.
Somente a flexibilidade e a humildade nos levam a não só abrir mão, mas também rever os nossos supostos “direitos e valores”. E só assim podemos retomar, prosseguir, ir mais longe, sob a direção do Espírito, e com menos danos colaterais.

Não se tornar um missionário pensando que vai encontrar ou fazer amigos legais.
Eu não estou dizendo que você não vai encontrar amigos maravilhosos, talvez, os melhores de sua vida. Contudo, não há como negar que o campo missionário pode apresentar missionários que são verdadeiros patinhos estranhos e feios.
Se você encontrar missionários em um culto na África sem nenhuma expressividade de comunhão e totalmente alheios à maneira dos africanos cultuarem a Deus, com seus tambores, palmas e danças, não se surpreenda. Não se surpreenda, também, se ouvir missionários falando de “usos e costumes”, de “não pode-isso-nem-aquilo”, ou pregando mensagens de “carapuça”, ou mesmo desabafando suas decepções, descontentamentos e aborrecimentos em cima dos novos crentes. Vai notar, também sem surpresas, que o relacionamento interpessoal desses missionários com seus colegas de missão é, na melhor das hipóteses, difícil e complicado.
Viver como missionário por anos pode fazer maravilhas no caráter e na força de um missionário, que pode até fazer coisas importantes e relevantes, como traduzir a Bíblia para o outro idioma. Mas se esse mesmo missionário é incapaz de conviver bem com outras pessoas, ou de vislumbrar a brisa suave do Espirito no átrio da igreja, seja onde for, ele será “como o metal que soa ou como o sino que tine”.
Então, se pensa que vai encontrar amigos legais no campo de missões, talvez seja melhor pensar numa nova definição da palavra “legal”, sendo você o primeiro a fazer a diferença.

Não se torne um missionário porque você acha isso “maravilhoso”.
Quantas vezes me emocionei na minha adolescência, participando dos cultos de missões, ouvindo os missionários ministrando sobre missão de uma forma emocionante. E na hora do apelo eu via tanta gente chorando e se oferecendo para ir fazer missões. Ainda hoje é assim.
Todo mundo quer ser um missionário porque têm uma visão “romântica” de missões. Mas nem imaginam o quanto é duro ser um missionário. Não é como sair por aí ganhando almas para o Reino do Senhor da forma mais fácil possível. Fazer missões é muito mais do que isso!
Sentimentalismo não funciona. Desejo somente não é suficiente. É preciso um amor verdadeiro pelas almas. É descer à “casa do oleiro”  e deixar-se ser moldado. É ser humilde, altruísta, otimista. É abrir mão de liberdades e escolhas; é ser forte quando está fraco; ser tudo mesmo não sendo nada. E sofre na partida; sofre no retorno; sofre quando é rejeitado, mal interpretado, abandonado. E tudo isso por amor aos perdidos.
E quando o missionário é enviado por sua igreja, que se compromete com seu sustento, e depois, com as “prioridades”, o sustento atrasa ou nem é depositado? E mesmo assim, o missionário tem que estar confiante, não esperando no homem, e sim, em Deus, crendo na provisão divina, mesmo sem saber o que vai comer ou vestir. É fácil, não? Não, não e fácil.

Romantismo não combina com missões.A realidade do campo missionário é bem diferente. Ser missionário é viver acima do sentimentalismo, e ainda achar isso mais que “maravilhoso”.

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