terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A ÁRVORE DAS MINHAS MÉMORIAS PERDIDAS

A ÁRVORE DAS MINHAS MEMÓRIAS PERDIDAS

Por Osvaldo Honório Filho

Há coisas que a gente não tem como deixar de lembrar. É como um cheiro que se impregna, e, por mais que a gente tente se livrar, lá está ele, exalando o seu cheiro. Ou como aquela música, que você acorda com ela na cabeça e passa o dia inteiro cantarolando, mesmo sem conhecer toda a letra, ou mesmo que não goste dela. Ou como pimentão na comida – dizem até que é bom para memória, pois depois de comê-lo, você passa o dia inteiro lembrando de tudo que comeu. Certas lembranças são exatamente assim.

Eu mesmo tenho memórias que carrego desde a minha infância. E, às vezes, até me assusto, não com o fato de poder lembrar, mas com a riqueza de detalhes com que elas vêm. Na verdade, acho que tenho memórias de tempos que nem mesmo existiram. Por exemplo, eu tenho lembranças de situações que parecem ter acontecido comigo. Parecem? Sim! Digo parecem, por que, ao buscar os fatos, as datas e os participantes, não os encontro. É como um episódio extra-temporal. Não se trata de ficção. Algo acontece diante dos meus olhos e, de repente, vem uma sensação de que aquela cena está se repetindo. É estranho, porque se me pergunto “quando e onde”, não encontro resposta. Daí, me pergunto de novo, porque, então, essa sensação tão forte, tão real, tão vigente, se nunca aconteceu? Eu seria capaz de falar do que senti, mas como não tenho como provar o “onde e o quando” (pois disso não há memória), aí eu deixo passar. Com certeza, ficaram na árvore das minhas memórias perdidas.

Mas de que memória eu estava mesmo falando? bom, acho que estava me referindo às memórias, das quais posso lembrar o dia e o lugar. Se bem que, já há muito, estou convencido que, se sou bom (e sou) em relatos, fatos e acontecimentos, por outro lado, não sou lá muito bom de guardar nomes e descrições. Às vezes, passo por momentos de grande constrangimento, quando me deparo com pessoas tão familiares, de convivências antigas, e elas, cheias de alegria e disposição , vêm a mim sorridentes e saudosas com um “oi, Osvaldo, que bom ver você de novo!...” e eu... eu sei que as conheço. Sou capaz até de dizer onde nos conhecemos, etc e tal, mas o nome – eu não consigo lembrar.

Alguém já disse que “a natureza interior de uma pessoa é expressa no nome”, outro disse que “o nome de uma pessoa é a impressão da sua natureza, e a expressão da impressão que sua natureza faz.” E eu me pergunto, será que eu não lembro dos nomes dessas pessoas, porque não me causaram nenhuma impressão? se for assim, acho que esta parte ficou, também, na árvore das minhas memórias perdidas.

Você pode até estar se identificando comigo, mas isso é terrível, principalmente pra quem ja lhe conhece a tanto tempo. Daí, busquei um meio de tentar superar essa minha “falta de impressão.” É o seguinte – isso, talvez, ajude a outros também - quando conheço uma nova pessoa, eu explico logo o meu problema com nomes, e peço desculpas, caso eu pergunte, na mesma conversa o “como é mesmo o seu nome?” O truque ou o método consiste em escrever o nome da pessoa, assim que a conhecer. Simples assim! Escrevo na mão, num papel, na parede (com o dedo mesmo!), no chão, onde for. Talvez você ache isso tolo, mas funciona. Vou explicar. Por eu ser bom em lembrar fatos e acontecimentos, isso me ajuda da seguinte maneira: para escrever, a gente precisa de caneta e papel, certo? Ou seja, algo para e onde escrever. Isso acaba se transformando em um acontecimento. Assim, toda vez que quero lembrar o nome de uma pessoa, eu rapidamente lembro do momento que eu escrevi o seu nome, e pronto. Comigo funciona mesmo. Aprendi com as vergonhas que passei.

Gente! Já falei de tanta besteira, mas ainda não cheguei nas memórias. De que memórias eu quero mesmo falar? Isso pode dar um tratado, quiçá uma tese. O que são memórias? Por que elas ocorrem? Onde se armazenam? Que valor têm para o individuo e para a coletividade? Alguém disse que uma pessoa sem memória é uma pessoa sem história. Por que?

Vamos continuar esse papo mais tarde, e fique livre para comentar.

2 comentários:

  1. Também sofro deste mesmo mal. Há alguns dias fui passear com Marcel na Bica e me deparei com uma moça e um bebê. Assim que fitei os olhos nela eu tinah certeza que a conhecia e que ela não tinha sido uma pessoa insignificante na minha vida. Mas de onde ela era? Qual o seu nome? Quem era aquele bebê? Podia até ter certeza de que ela não era tão magra e que tinha mudado a cor do cabelo, mas nada de nomes, lugares, histórias... O mais dificil foi qd ela me viu tb e com um largo sorriso me chamou pelo nome e reclamou: "Porque vc sumiu! Nunca mais nos visitou. Aparece lá, qualquer dia desses". Mas lá aonde? Não tive coragem de dizer que a tinha esquecido. Fui simpática, falei da cor diferente do seu cabelo, apresentei Marcel e dei um jeito de sair correndo de lá. Que situação!

    ResponderExcluir
  2. PUXA, SUAS MEMORIAS PARECEM AS MINHAS. VC ESCREVE DE UM JEITO TAO PROFUNDO, TAO LINDO, TAO SIGNIFICANTE QUE ATE PENSEI QUE ESSE BLOG ERA MEU! PARABENS, MEU! CNTINUA ASSIM. SOU SUA FA NUMERO UM.

    ResponderExcluir