terça-feira, 8 de dezembro de 2009

ENQUANTO ESCREVO...

ENQUANTO ESCREVO...

Por Osvaldo Honório Filho

...Reflito sobre o coração Paterno de Deus.

Passei um bom tempo da minha adolescência achando muito difícil enxergar o lado paterno de Deus, e chamá-lo de Papai era meio complicado para mim. Não sentia dificuldade alguma em reconhecê-lo e tratá-lo como Deus, de respeitar o Seu Senhorio, soberania e poder, mas dizer “meu Pai”... isso era muito difícil.
...
O porquê da dificuldade? Não sei ao certo. Talvez, porque "pai" foi para mim, por muito tempo, uma palavra sem sentido de proximidade, carinho, cuidado, proteção, exemplo... e, talvez, por ver, no meu pai terreno, apenas um progenitor, um parente (quase distante), que mal se fazia presente em casa, e muito menos na minha vida. Alguém, não só distante e ausente, mesmo sem nunca ter saído de casa, mas também, imparcial, incomunicável e... sem adoção paternal.

Não me lembro do meu pai sendo impiedoso, maligno, maldoso ou hostil comigo. Sei que ele trabalhava dobrado e, por sermos muitos filhos, ele tinha que trabalhar muito, o que fazia com que o víssemos o mínimo de tempo possível. E durante esse pouco tempo, ele estava sempre cansado, às vezes chateado, ou envolvido com alguma outra coisa. Por conta disso, não lembro dele como uma influência marcante na minha fase da minha vida infanto-juvenil. Talvez, por isso também, a minha grande dificuldade de ver Deus como Pai, por causa da carência que o meu pai deixou com sua presença ausente.

É involuntário. Tudo faz com que lembranças tão profundas venham à superfície de modo tão rápido e exposto, que mal tenho como me situar. Não vale a pena relatar. Mas o meu questionamento, ainda em criança, sendo Deus mesmo o meu Pai Eterno, por que, então, me dar pais, mais especificamente, um pai sem adoção?

Quando fui adolescendo, senti muita culpa e raiva e guardei, por muito tempo, ressentimentos profundos. Sentimentos que acompanhavam meu crescimento e que cresciam instantaneamente. Eu tentava reagir, buscar respostas... mas explicações não explicavam, e o pior é que, no final ,eu me sentia como que, pendurado num abismo sem fundo, com medo de que, se deixasse algo daquilo sair, perderia totalmente o controle de tudo. Como ver Deus como Pai, se nunca conheci alguém que me visse realmente como filho?

Eu seu que Deus entendia o que me ia na alma e, de algum modo, eu sabia que ele gostava de mim, e que, se eu deixasse, Ele seria o Pai que eu tanto precisava.

Mas, como adolescente, eu achava aquela oferta, tanto estimulante como repulsiva. Eu sempre quis um pai em quem eu pudesse confiar, mas não sabia se iria encontrá-lo. E, naquele tempo, se por ignorância ou revolta eu não sabia direito o que dizer, ou fazer. O meu desejo era, ao mesmo tempo, correr para os braços do Pai, e correr para longe do Pai.

Outra coisa que me machucava bastante foi o fato de eu ter sido estuprado aos sete anos... e não ter nem meu pai terreno nem meu Pai Eterno para me proteger naquele momento de grande pavor e terror para um ser frágil e inocente.

Como criança, a gente espera que o adulto nos ame, nos mostre o caminho, e mais que tudo, nos proteja. A gente confia nele com fidelidade e depende dele, como se ninguém mais existisse. Mas quando esse adulto trai uma criança, denigre sua imagem, e a macula, essa criança perde a concepção do seu próprio ser; e o pior, passa a ver todo adulto como uma ameaça à sua existência, uma violação à sua moral. E ela, coitada, perde totalmente o rumo, fica perdida, sem saber ou sem querer mais crescer. Ela não quer se tornar naquele monstro que a violentou.

Ela esperava que aquele adulto a conduzisse do escuro para a luz, e se entregou confiante a essa pessoa, mas, de repente, percebe que a pessoa, ao invés de levá-la para a luz, na verdade, estava era aprofundando-a, mais e mais, para as trevas... para molestá-la de modo vil e brutal, e depois abandoná-la. E, sozinha, enfraquecida e desolada, a criança fica sem caminho e sem rumo pra voltar.

Se pelo menos um dos meus pai estivessem lá pra me proteger, ou ao menos para socorrer e me trazer de volta para casa, me tratar, parar a dor, sanar as feridas e me dar colo e amor, tudo isso teria feito uma diferença inigualável e, quem sabe, suplantado todo o mal causado. Mas onde estavam meus protetores? Essa foi uma pergunta que me atormentou por tanto tempo, e que me causou tanta tristeza e desolação. E será que Deus, como o Pai Celestial, estava ciente do tamanho do abismo que aquele acontecimento abriu entre nós?

Passei muito tempo achando que não existia resposta fácil para a minha dor. E ainda acho que não existe, nem resposta e nem varinha mágica capaz de fazer com que toda aquela cena se apague da minha mente, ou que o quadro se reverta. A mente humana é tão misteriosa e profunda quanto Aquele que a criou. A cura e a restauração, portanto, somente Ele, o Pai, pode efetuar. Mas isso custa tempo.

Pra começar, é preciso ter em mente que, o que aconteceu, aconteceu, que "águas passadas não movem moinho". Não há como reverter uma cena real. Não se trata de uma cena de filme que é possível deletar. É, também, crucial tirar do caminho os questionamentos infrutíferos, que só alimentam a dor e a revolta, e assim, fazer com que as coisas do coração fiquem mais fáceis de ser trabalhadas. Chorar e lamentar são inevitáveis e até necessários, mas não geram a cura.

É preciso buscar um remédio. E o remédio é voltar para os braços eternos do Pai. Mas eu precisava estar pronto. E Deus sabia disso. O Pai, com certeza e na hora certa, iria abrir a porta para eu passar.

8 comentários:

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  2. Olha, vou confessar que até tentei figurar o que voce passou, e sinceramente, não daria nada pra estar no seu lugar naquele dia. Uma amiga minha sofreu um atentado de estupro, mas ela ja era adulta e deu pra se safar, só que ela fica fazendo a coisa parecer pior do que foi e se vitimiza o tempo todo. Vou imprimir seu artigo e dar pra ela ler. Imagime o trauma que voce sofreu e ainda sofre, e mesmo assim ainda consegue escrever de forma tão profunda. Eu não sou muito religioso, mas me deu vontade de lhe dizer que voce já achou o remedio nos braços de Deus, e não só pra voce, mas pra quem mais ler seu artigo.
    gostei muito.

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  4. Eu já ouvi, li e reli sua historia e mesmo se quisesse, mesmo se pegasse algo que me machucasse profundamente, não ia poder sentir o que vc sente ou sentiu. Eu só sei dizer, "lamento". Queria estar lá, pra proteger vc, mas naquele tempo eu era apenas um sonho na mente de Deus. Sinto muito que vc tenha sofrido o que sofreu, mas admiro saber que vc pegou seu coração em pedaços e o levou a Deus. Só ele pode curar as feridas da alma, e restaurar as do corpo.
    O interessante disso tudo, porém, é essa sua incrível capacidade de tirar alegria da dor, absorver experiências e crescer. você não ficou lá no chão, parado, lambendo as feridas como um cachorro sem dono, não! Aí esta você, escrevendo para curar outros! Parabéns! Se antes eu já lhe admirava, ainda mais agora. Vá em frente, não pare, mas se tiver que parar, que não seja por muito tempo, pois a vida não para! E obrigada pelos conselhos que tenho extraído da sua vida, das suas memórias. Vou usá-los quando constituir minha família, e me serão muito úteis.
    Você é especial!

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  5. Que bom ler esse artigo! ! !
    Lido com isso todos os dias aqui no Abrigo de crianças onde trabalho, e sinto como é doloroso saber e não poder fazer nada pra reverter essa situação. Não temos nem mesmo psicólogos vem pra nos ajudar, e a participação da Justiça em relação a essas crianças é somente burocrática e fica apenas na papelada. Saber que um adulto abusou e maltratou uma criança, e que a Justiça a joga de volta pra esses mesmos braços que a feriu por não terem "provas suficientes", é mesmo de corta o coração, e gera raiva na gente.
    Por falta de experiência para ajudar mais e melhor, fico muito ferida na alma, juntamente com elas, pois sinto um pouco dessa dor que elas sentem, sem falar da possibilidade de que, mais tarde, elas podem também ferir e fazer outras vítimas... A dor que sinto no momento em que leio seu artigo, é inigualável, é dor duplicada, vivenciada...(voltarei)

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  6. Olá Osvaldo. Te encontrei. Você fez muita falta no curso de Administração, acrescentava nas reflexões e consequentemente ajuda o professora a dar aula. O professor só é quando existe o aluno.
    Abraços
    Profª Valdira

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  7. Como você conhece muito da minha história, o que tenho a dizer é muito obrigado pela sua vida e existência, porque mesmo na sua história de dor e no sofrimento que você passou, foi que Deus usou para alcançar minha vida e alcançou de tal maneira que só a eternidade e o deus eterno em tempo determinado vai poder revelar.Por isso muito obrigado pela sua vida. do seu amigo de sempre. Alberto jorge almeida santos

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  8. Um dia me disseram que nós conhecmos os fatos , mas Deus é que conhecem a história de cada um!
    Só você e ele sabe medir a intensidae de tudo isso, lendo e relendo foi como se um filme passasse em minha cabeça, acredite senti angustia e mêdo, enquanto assistia na minha mente, seu filme, vi uma crinça meiga, linda, doce e totalmente desmparada, mas me consolo no saber que a despeito de tudo que vc diz, eu acredito que vc ja encontrou a saída!O Pai ja te encontrou, Papai do céu!!

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